
Nos anos 80 estiveram quase extintos, mas hoje existem já mais de dois mil veados ibéricos em Portugal. A grande ameaça são agora os prejuízos que provocam na agricultura e o perigo de contaminação genética devido às espécies 'estrangeiras' introduzidas pelas reservas de caça
Hoje, deverão existir mais de 2000 animais
Alguns exemplares começaram por cruzar o rio Tejo a nado vai para 20 anos. Deixaram Espanha para trás e optaram por se fixar do lado de cá da raia portuguesa. Hoje, serão mais de dois mil os veados ibéricos instalados ao longo do Parque Natural do Tejo Internacional, entre Castelo Branco e Monfortinho. Não há propriedade na zona onde o segundo maior cervídeo da Europa - a seguir ao alce - não seja visto, sobretudo quando chega o final do dia, ou logo após o nascer do sol. Mas este abrupto aumento populacional está a dar cabo dos nervos ao sector agrícola.
São os veados autóctones portugueses. Muito raros de avistar até à década de 80, os seus antepassados encontraram no território nacional alimento, sossego e abrigo, deixando-se convencer a ficar por cá, tendo atraído outros membros do grupo. Só na Herdade do Galisteu, uma zona de caça turística pouco explorada em termos cinegéticos, estima-se que a comunidade deverá chegar aos 300 indivíduos, embora numa propriedade vizinha com mais de mil hectares, que pertence à família Espírito Santo, existam pelo menos 1200.
Os principais sinais da presença maciça de veados na zona, quando os animais estão recolhidos, são exibidos através dos excrementos, pegadas, mas também pela ausência de vegetação nas árvores em alturas inferiores aos dois metros, consumida pela espécie. Os excrementos têm a forma de azeitona, enquanto as pegadas se assemelham às das ovelhas, mas em maior formato, podendo atingir os 9 centímetros de comprimento, no caso dos machos, e os seis, se se tratar de uma fêmea. Os juvenis, por não terem o casco das patas gasto, deixam pegadas mais profundas.
João Remos, encarregado florestal de várias herdades no Parque do Tejo Internacional, explica a expansão dos veados nascidos em Espanha para Portugal . "Eles têm muita facilidade em passar o rio e descobriram um local que estava livre de veados e onde não eram incomodados." Mas há constantes movimentações entre ambos os lados da fronteira, sobretudo, na época de acasalamento. "Há veados que vão procurar parceiras a Espanha, mas são os veados de Espanha que mais vêm procurar acasalar em Portugal", sabendo-se que o macho constitui autênticos haréns, alguns com mais de dez fêmeas, tornando-se bastante agressivos para algum rival que surja no seu território.
Aliás, não é por isso difícil avistar lutas titânicas entre machos no período da reprodução ou da brama, como também é designado, que se pode estender até Novembro. Os animais mais corpulentos adoptam, então, uma postura de intimidação; soltam bramidos e, se nenhum se afastar, começa a luta.
O vencedor tem a recompensa: oito meses depois, entre os meses de Maio e Junho, nascem as crias. Que, se tudo correr bem, podem viver até 20 anos.
Após a sua reintrodução na Reserva Regional de Caza Sierra de la Cullebra, zona de caça espanhola que faz fronteira, a nordeste, com o Parque Natural de Montesinho, na década de 70, o veado (Cervus elaphus) expandiu-se para território português, ocupando actualmente mais de 30.000ha e apresentando uma população com mais de 700 indivíduos.
Durante o período de Setembro a Outubro, acontece anualmente um dos espectáculos mais belos e intimistas do nosso meio natural e que corresponde ao período de acasalamento do veado, conhecido por época da “Brama”. Os machos, normalmente tímidos ao longo do ano, evidenciam agora uma grande exuberância, emitindo fortes bramidos que denunciam a sua presença face aos outros machos concorrentes, num exercício de demonstração de poder sobre um território e sobre as fêmeas que o habitam.
Para lá do aspecto cénico desta época, importa referir o grande valor da espécie em termos de conservação da natureza, o veado é o maior mamífero dos ecossistemas ibéricos e desempenha um importante papel no equilíbrio deste ecossistema nordestino, sendo um elemento de grande relevância na cadeia alimentar do lobo-ibérico (Canis lupus signatus).
Importa pois encontrar caminhos que, preservando os ecossistemas, levem ao encontro de soluções que compatibilizem os vários interesses que actuam sobre o território, como a conservação da natureza, as actividades agrícolas e florestais, o turismo e a caça.
Video: Reportagem RTP - Brama dos Veados
Veados à solta no Algarve
Não são comuns na região, mas já se encontram nestas paragens desde a década de 80. A Serra de Silves é a grande casa destes animais que já se estenderam às zonas de Monchique e Messines.
Introduzidos na Herdade da Parra – usado como um refúgio –, em Silves, para dar uma dinâmica diferente à serra, o ‘cervus elaphus linnaeus’ (nome científico para veado), encontra-se no Algarve desde 1980, onde apesar de não ser o seu o habitat natural, já se sentem em casa.
"Hoje em dia é uma raridade ter esta população cá em baixo”, começa por afirmar Carina Marques ao Observatório do Algarve, bióloga da associação Viva Serra, adiantando que costumam viver em territórios com mais matagal e temperaturas mais baixas, mas “acostumaram-se a esta zona”, afiança.
Os incêndios vieram encurtar os seus espaços, dizimando o matagal que eles necessitam para se refugiar e alimentar, mas em contrapartida, foi a razão para os animais se expandirem pelas serras algarvias, já que foram forçados a procurar zonas com uma florestação mais densa.
No Algarve, o maior foco populacional é em Silves, mas os veados já podem ser vistos nas serras de Monchique, Messines e São Brás de Alportel.
No resto do país é costume encontrar estes veados na Serra da Lousã, Trás-os-Montes, na Tapada de Sintra e em algumas coutadas do Alentejo, já que os serviços florestais decidiram continuar a preservar esta espécie em Portugal.
Apesar de não ser vista com muita regularidade pelos que passeiam nas serras, a espécie não está em vias de extinção. No entanto, não estão livres de perigo: “Graças à nova legislação, que proibe que sejam caçados, já existem cerca de 160 veados no Algarve, mas ainda continua infelizmente a haver algum furtivismo”, alerta Carina Marques.